C.D. -
Como surgiu o Zero?
G. I. – Em 1983
conheci uma banda que tocava punk jazz, percebi que vários dos temas receberiam
bem uma melodia e então comecei a escrever algumas letras. Mais tarde
apresentei as letras e melodias para o
Ultimato e decidimos seguir em frente como ZERØ. Essa é a história da primeira
formação, conhecida como “Original”, de onde saiu o Violeta de Outono e o
Dialecto.
C.D. -
Quais as influências iniciais da banda?
G. I. – Gong,
King Krimson, Can, Talking Heads, Gang of Four, etc. no início, mais tarde, com
a formação conhecida como “Clássica”, Roxy Music, Bowie, Talk Talk, Simple
Minds, Depeche, etc.
C.D. -
Depois de tantos anos de Carreira, como é
olhar pra trás e ver que poucos artistas surgidos nos anos 80 sobreviveram?
G. I. – Você diz
“sobreviveram” profissionalmente ou literalmente? Porque não foram poucos os
amigos que se foram. A década de 80 foi uma década de excessos, muita gente
perdeu a linha, o rumo e a vida. Com relação a sobrevivência artística, é
natural que no auge de um movimento os papagaios de pirata apareçam, mas o
tempo separa o joio do trigo e essa peneira é a sinceridade e a qualidade.
Alguns colegas incursionaram por gêneros musicais “do momento” pra tentar
continuar sob os holofotes, eu sou fiel a transgressão, ao rock alternativo e
desconfio do sucesso. O que não quer dizer que eu me sinta impedido de gravar
os meus inúmeros sambas, mas é uma decisão alheia ao mercado, é a minha
necessidade de expor essa produção.
C.D. -
Você imaginou algum dia que tantos anos
depois alguma música sua ainda seria parte da programação de grandes Radios,
como é o caso de "AGORA EU SEI"? De onde vem tamanha afinidade do
público com essa música?
G. I. – O
sucesso de Agora Eu Sei corrobora minha suspeita de que a veiculação massiva
transforma qualquer coisa em sucesso. Não que eu ache que não merecemos essa
resposta do público, mas convenhamos que é um tema meio cabeludo pra sucesso
pop. A história é mais ou menos a seguinte, a canção de trabalho do nosso disco
era a primeira faixa: Cada Fio Um Sonho, mas quando os programadores
descobriram que na faixa dois tinha a participação do Paulo Ricardo,
atropelaram o marketing da gravadora e saíram tocando Agora Eu Sei. Eu tenho
como lembrança mais absurda a gente cantando no Show da Xuxa com todas aquelas
crianças alegres e inocentes sacudindo as vassourinhas e entoando (...) tudo o
que isso me traaaaz de dor, isso me traaaaaaaz de dor (...). Daí foi aquilo,
tanto martelou que as pessoas tiveram a oportunidade de meditar sobre as
palavras da canção, o que raramente ocorre com trabalhos artísticos de conteúdo
mais profundo e várias dessas pessoas identificaram-se com o desencanto ali
expresso.
C.D. -
Quando surgiu a oportunidade de gravar o
primeiro disco? Porque ele tem poucas faixas?
G. I. – Em 1985
fomos convidados pelo Jorge Davidson, da EMI naquela época, para gravar nosso
trabalho. Ele nos ligou, perguntou qual era nossa situação na CBS por onde
lançamos um compacto e disse que tinha um novo projeto pra nos incluir. O
“novo” projeto era o lançamento de um “novo” formato batizado de Mini-LP. Eu
detestei a idéia e cheguei até a discutir com o presidente da companhia
apelando para o bom senso (inexistente) explicando que no mundo inteiro esse
tipo de produto chamava-se Extended Play ou seja um produto de baixo custo com
duração estendida além da de um compacto duplo e que Mini-LP me fazia pensar
imediatamente em um LP pequenininho. Foi em vão. O tiro saiu pela culatra para
todos. O plano era ter um produto que custaria menos e venderia mais. Só
acertaram a segunda etapa, realmente vendeu muito, mas nenhum lojista cobrou
menos por isso, eles cobravam exatamente o mesmo preço de qualquer LP mesmo
tendo pagado a metade do preço por ele. Ou seja, eu perdi muito dinheiro e a
gravadora mais ainda.
C.D. -
Você acha que os anos 80 foram realmente
mais criativos (musicalmente falando), que as décadas posteriores?
G. I. – Essa
história de “Anos 80” é um rótulo redutor que ainda não foi bem explicado nem
entendido. Eu costumo usar a seguinte analogia: Nos anos 60 se fez o melhor
rock na Inglaterra, nos anos 70 foi a vez dos EUA, os 80s são a década de ouro
da história do rock brasileiro. Isso não quer dizer que fulano ou sicrano que
fazem rock de qualidade são anos 80 e sim que eles fazem rock do bom. Apareceu
muita gente boa por aí depois dos 80, Chico Science, Cassia Eller, vou parar
por aqui pra não causar polêmica, mas atualmente a parada anda indigesta. O que
a mídia resolveu eleger como tocável de rock é simplesmente insuportável.
C.D. -
Você é uma pessoa aparentemente bastante
humanitária, íniciou o projeto "Concerto Pró Sri-Lanka", que é uma
iniciativa impar, de onde você julga vir essa sensibilidade?
G. I. – Eu não
estou sozinho nesse planeta e duvido muito de que sejamos diferentes e únicos
como a maioria de nós acredita ser. Àquela altura eu fiquei emocionado com o
desaparecimento imediato e simultâneo de tantos milhares de seres em um só
evento e procurei ajudar os sobreviventes da maneira que estava ao meu alcance.
Infelizmente não passou da boa intenção, apesar de termos conseguido mobilizar
uma enormidade de artistas, as questões infra-estruturais se interpuseram e não
conseguimos alcançar o objetivo.
C.D. -
O que você recomenda para artistas
iniciantes? Existe algum caminho mais "seguro" pra chegar ao sucesso?
G. I. – A um
artista iniciante eu recomendo desconfiar do sucesso ao invés de persegui-lo e
lembro uma frase de Vinicius de Moraes que sempre me impacta: A arte não ama os
covardes!
C.D. -
Por falar em sucesso, o que ele significa
pra você? Como foi a experiência de ficar longe das programações das grandes
rádios?
G. I. – Existem
dois tipos de sucesso. Um é aquela satisfação pessoal de dever cumprido, de
objetivos alcançados e esse sucesso só pode ser quantificado, desfrutado ou
lamentado por quem o criou, batalhou, produziu e construiu. Nesse sentido eu
sou um ser no gozo pleno de um inesgotável sucesso. O outro sucesso é aquele
atribuído pela avaliação de terceiros, não é baseado no que você é, faz, pensa
ou cria e sim na exposição que isso alcança na mídia. Um é abundante e eterno,
o outro é sazonal, ilusório e atrai toda sorte de vampiros etéreos e mariposas
sedentas da luz alheia. Você precisa decidir qual sucesso te faz bem, pra mim a
escolha foi fácil.
C.D. -
O que o Guilherme Isnard, faz quando está de
folga do ZERO?
G. I. –
Atualmente curte o seu mais novo hit, Nicholas Kim Isnard, um presente que Deus,
com parto previsto para a segunda ou terceira semana de fevereiro de 2008. Fora
isso, livros sempre aos montes, filmes em montes iguais e toda sorte de
manifestações culturais, mostras, exposições, shows, etc. Também ando entretido
com a seleção de repertório para um projeto francophono aproveitando a minha
dupla nacionalidade e o ano da França no Brasil.
Até a próxima!